O paredão do suicídio
Combate, setembro de 2003, edição em linha
Jornal2003António LouçãA construção do muro da Cisjordânia parece reunir em Israel o consenso de likudistas e trabalhistas. Mas a brutalidade inerente ao projecto está a criar fracturas entre alguns dos mais destacados intelectuais israelitas. Recentemente, o diário Ha’aretz dava conta da ruptura de dois deles com a ideia de construir e defender um Estado judaico.
Um deles é Meron Benvenisti, com um longo passado sionista, que se recorda de ter participado, em 1949, em brigadas voluntárias para o trabalho dos campos. E recorda-se que "quando fiz a colheita nos campos pertencentes aos palestinianos, isso não me pareceu terrível. A tragédia deles simplesmente não entrou na minha consciência". Dirigente do partido centrista de esquerda Meretz, Benvenisti foi um dos responsáveis do município de Jerusalém sob a liderança do sionista de "esquerda" Teddy Kolek e, nessa qualidade, uma personalidade importante na política de ocupação. Olhando agora para o muro em construção, ele reflecte que o consenso dos principais partidos sobre a utilidade dessa barreira aberrante se explica porque "a direita, certamente, mas também a esquerda, odeiam os árabes. Os árabes incomodam-nos, eles complicam as coisas". E prossegue, explicando que "é por isso que a esquerda quer este muro terrível, que na minha opinião é anti-geográfico, anti-histórico e anti-humano. É por isso que a esquerda quer esconder-se atrás deste muro, que na minha maneira de ver é a violação do país".
No entanto, Benvenisti adverte também que, "no fim de tudo, vamos ser aqui uma minoria judaica", porque a ocupação de Jerusalém, Gaza e Cisjordânia em 1967 foi "uma vitória a mais" e tornou inevitável, mais tarde ou mais cedo, uma preponderância demográfica palestiniana. "Vocês podem levantar aqui todos os muros do mundo, diz o nosso autor aos seus compatriotas, mas não conseguirão ultrapassar o facto de que só cá existe um lençol aquífero e o mesmo ar, e de que todos os rios correm para o mesmo mar. Vocês não conseguirão ultrapassar o facto de que este país não vai tolerar uma fronteira a meio dele".
No plano teórico, Benvenisti observa que a guerra em curso não é um clássico conflito entre duas nações. Trata-se, sim, de "um conflito entre uma sociedade de imigrantes e uma sociedade de nativos", que disputam o mesmo território. Ele não pode, portanto, resolver-se com a criação de dois Estados-nação, mas apenas, segundo a reflexão mais recente do nosso autor, mediante a criação de um só Estado binacional.
Haim Hanegbi tem um passado mais esquerdista, como dirigente do partido anti-sionista Matzpen, mas também ele cooperou nos últimos anos com o movimento pacifista Gush Shalom e mesmo com o partido trabalhista de Rabin, sob a bandeira da criação de dois Estados na Palestina histórica, um judaico e um árabe.
Agora, com a construção do muro, Hanegbi abandonou todas as ilusões sobre as virtudes pacificadoras e reconciliadoras da solução dos dois Estados. O Estado de "Israel, reconhece ele agora, não poderá libertar-se da sua característica expansionista. Ele está atado de pés e mãos à sua ideologia congénita e ao seu acto fundador, que foi um acto de expropriação".
Também Hanegbi aconselha os seus compatriotas a habituarem-se à ideia de que têm de "viver aqui como minoria: uma minoria judaica que não continuará a ser espremida entre Hadera e Gedera, mas que poderá instalar-se em Nablus, e Bagdade, e Damasco". Ele compreende que "o muro aprisiona os israelitas, transforma Israel num ghetto" e que, "no final, o povo indígena vai ser mais forte do que Israel. Aqueles que esperam viver pela espada, hão-de morrer pela espada". O muro que se oferece aos israelitas com uma promessa de segurança é, assim, um símbolo da aposta suicida do sionismo: "se Israel continuar a ser um Estado colonialista na sua essência, não sobreviverá".
António Louçã
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.