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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O populismo está na moda

Cecília Honório · setembro de 2004 · Revista Combate · 4.992 palavras

Combate n.º 280, setembro a novembro de 2004

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O populismo no verão

Ensaiem localizar bibliografia sobre o assunto. Espreitem os resultados de uma pesquisa na internet. Atravessem os blogues. O populismo é assunto espaçoso. Vasculhem jornais deste verão e constatarão que o populismo é tema quente, tão quente que se alimenta de uma espécie de pornografia conceptual. Deitem os olhos aos blogues: ele há populismo de esquerda e de direita e gente a favor, contra e assim, assim. Pacheco Pereira actualiza reflexões anteriores; recorda que o reformismo próprio do PSD é a antítese do populismo do PP, ao mesmo tempo que não se coíbe de recordar que o desastre de Castelo de Paiva é aliado de “150 anos de populismo democrático”1. Nas prolixas discussões do Blogue de Esquerda, há quem se questione: que mal tem ser simpático com o povo?!2

O Diário de Leiria de 29 de Julho de 2004 garante que Lopes e Sócrates são populistas porque não sabem gerir nada a não ser as suas imagens. O PS sustenta que a transferência de ministérios é “despesismo” e “populismo”, afiambrando a emoção fácil de Santana Lopes3. Há especialistas a afiançar que

“Fahrenheit 9/11” é “populismo tablóide de esquerda”4 A. Costa Pinto reforça que se alardeia o adjectivo a propósito de Santana Lopes, que o populismo está para além da demagogia, que tem esse apetite de se querer a superar o binómio esquerdadireita, com práticas de direita e retórica de esquerda, e que o Primeiro-Ministro, enquanto tal, está nas piores condições para poder ser populista5. Pedro Lomba apresenta um faustoso menu para a produção de um populista decente, que ganhe o poder e “não um pequeno populista do género do dr. Louçã”6. O populismo está na moda e generalizado por estes novos arautos da razão perdida de Descartes ganha o condão de se converter numa perigosa banalidade. Avesso a esta banalidade é o olhar de Teresa de Sousa em artigo subordinado ao título, “Populismo de Sistema”, por focalizar as situações em que o populismo é governo, esse parentesco entre Berlusconi e Santana. Refere-se à nova vaga do populismo europeu, retratando a exploração dos medos (da globalização e dos seus custos, de refugiados e imigrantes, de uma Europa alargada e não compreendida, do terrorismo islâmico, do “choque de civilizações”), que se não é nova atingiu a apoteose da mediatização. Recorda os populistas que descem da Escandinávia ao Mediterrâneo, de Pim Fortuyn, Heider, Le Pen, Bossi, para relembrar que aqui é sistema, colocando Berlusconi no eixo das actuais ameaças às democracias liberais7 e revisitando Santana como reciclagem e aprofundamento do populismo, com e para além do PP, ou de Alberto João Jardim8. É certo que o populismo é governo onde as ditaduras do século vinte tiveram porto de abrigo, países onde as sensibili-

dades e os católicos poderes evocam com mais naturalidade o reino dos céus, mas Santana Lopes não é propriamente a bela adormecida, desejada até à dor pelo príncipe Portas, mas efectivamente beijada e desperta do seu torpor pelo príncipe Sampaio, porque, diversamente do que afirma Teresa de Sousa, o populismo não “nos chegou de chofre”. “Não nos chegou de chofre” porque o populismo, segundo os académicos, regurgita mais facilmente nas sociedades onde o passado lhe deu pasto, mesmo se há quem sublinhe que ele não tem memória de si próprio9 e porque o populismo também é sistema na Madeira. Por outro, desconhecendo eu se Pedro Lomba tem razão e se Guterres foi uma invenção dos brasileiros – para populista genuíno faltar-lhe-ão, no mínimo, muitos dos ingredientes do líder carismático e mediático que assistem às mais actualizadas versões - convir-se-á que o Guterrismo nos devolveu o medo da insegurança nas ruas, o paternalismo altruísta, a revisão da piedade e que, nesta reciclagem de uma moral de sentimentos, contribuiu para deslocalizar a política. Para não se fazer passar jornalistas e produtores de opinião por ignorantes, resta uma advertência: a de que a promiscuidade conceptual que assiste a esta litania sobre o populismo, ontem como hoje, tem fundamentos que lhe vêm dos académicos (até porque o sufixo que o habita esclarece a sua natureza de sistema, de doutrina, ou de conformação). O termo surge generalizado em França na década de 50 com Poujade e o seu projecto de unir a França sob os valores morais e espirituais que podem unir todos os povos, independentemente de raça, ou religião. A partir desta década, e até aos dias

correntes, tornou-se um dos mais pródigos objectos de estudo, mormente na América Latina, onde todos os debates se fizeram e se fazem e até há quem prenda o petismo no campo do “populismo neoliberal”10. O populismo é dos temas mais trabalhados das últimas décadas e o seu vigor a ocidente, desde a década de 80, fez proliferar estudos e visões do objecto. Há quem o associe à demagogia e há quem o distinga absolutamente dela. Há quem lhe retire a determinante negativa. Há mesmo quem a rejeite em nome das possibilidades e da história de uma “política do povo”, recusando a aliança populismo/manipulação e alvitrando que ele faz parte de processos de instalação de novas forças11. Há quem o veja como ideologia e há quem lhe recuse esse estatuto. Há quem, nesta linha de recusa, o veja como “estilo político”, transversal, portanto, a todas as ideologias políticas, e que lhe chame neo-populismo por desideologizar; aqui, com a enorme vantagem de se acentuar o recurso às fontes mediáticas, o desafio à mediação institucional, vectores que instalam o curto-circuito do sistema político, política anti-política, que testa popularidades de líderes na e pela televisão12. Nesta extensão, aliás, e enquanto eles discutem se há neopopulismo, ou não, um dado novo é incontornável: a mercadorização atravessa a política a uma velocidade perturbadora e quanto mais o populismo se faz valer da exclusão do povo da vida política, mais precisa que “ele” fique sentado no sofá. Os políticos tornaram-se a mais sofisticada operação cirúrgica deste produto. Berlusconi é um produto televisivo que, não apenas pelos conteúdos, mas pelas formas, ocupou um espaço vago no mercado eleitoral13. Neste conspícuo cenário, surge a necessidade de garantir alguma formatação para o populismo: espreitar-lhe a história e identificar denominadores que preencham a nossa agenda política. Resvala, entretanto, o apetite por duas advertências: Embora Laclau, que se reivindica de uma teoria marxista crítica, retire ao populismo a particularidade de se manifestar em períodos de transição e a análise das suas bases sociais, identifica uma matriz ideológica comum a todas as suas manifestações: a tradição. Há quem sustente que a “máscara” populista do lepenismo branqueou a sua composição ideológica e política fascista tanto melhor quanto mais os seus adversários menos especificaram o que queriam dizer quando o acusavam de populista14.

NOTAS à navegação da democracia

Mais do que o seu suporte sociológico (rural, muitas vezes, urbano, outras tantas), o populismo construiu-se como suporte moral, onde pastaram valores agraristas, ou mesmo anticapitalistas, mas sobretudo, onde pastou uma esperança feita do labor de mitos fundadores e do banal tornado épico. Instalado em quadros de transição, e apresentando ciclos nítidos desde o século XIX, o populismo foi um poderoso reagente às transformações modernas do aparelho de estado, da propriedade e da exploração, às debilidades das democracias liberais do século vinte e à crise do capitalismo, tal como o pode ser, hoje, às democracias liberais, às pastosidades do neoliberalismo. Na sua matriz estritamente emocional e moral, o populismo pode ser coisa pouca, ou muita, se nos ativer o quadro de des-

moronamento de relações em que tantas vezes se instalou. A comoção perante a miséria nem faz mal a ninguém. Mas o populismo tem uma intrínseca composição intelectual, está longe de ser o parente rico dos camponeses espoliados; como ideologia, como projecto de, ou como poder, vale a insistência na sua capacidade reagente à democracia liberal por algumas das melhores razões: — porque esta democracia se gerou no mais sublime equívoco, o da soberania popular; — porque, no desligamento entre governantes e governados, na frieza mortuária da democracia, o populismo oferece calor ao medo do futuro, à desilusão; — porque torna indissociáveis o líder carismático e a televisão; Como poder, ou como “sistema”, o populismo carece do homem providencial, carismático, e parece certo que este tipo de líder se distingue do demagogo porque precisa de ser um “emocional verdadeiro” (ou de conseguir parecê-lo), mais perto da retórica do que da demagogia, capaz de “um mínimo de argumentos e de um máximo de fórmulas choque”15. Com a televisão, a fusão, do corpo, da imagem, do espectador, está garantida; as emoções ganham às palavras e a analogia ignora a lógica. Este populismo precisa de um tele-corpo. Quanto mais o “povo” está entalado na garganta de governantes, nos olhos vítreos e comovidos de políticos, quanto mais o sofá for o espaço da sua intervenção cidadã, mais garantias se terá da actualidade das palavras proféticas de S. Mateus: “Bem aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”16 e ele estava mesmo a falar dos humildes, dos mais fracos. Não há, pois, populismo sem um corpo que o sirva e, excepção feita a algumas primeiras damas bastante referidas, de Evita a Hillary Clinton, eles são homens. O presente gera novos formatos e mantém os mais conhecidos, os corpos dos “guerreiros”. Santana, de profícuos trejeitos labiais que vão até ao beicinho, de elegância prendada com pulseira, mais perto da máscara de Clinton, parece, por ora, empenhado em criar distância do grande emotivo dos congressos. Longe, portanto, da virilidade agressiva, guerreira, à espreita do combate de Le Pen, cujo cesarismo e profetismo encaixam na figura arrogante de exparaquedista. Longe de Chávez que, unindo a um tempo essa dupla das alianças policlassistas, o militar e o intelectual, é esse corpo da “revolução mestiça” (que não carece dos cânones marxistas) e que perturba tanto quão incontornável é o arrojo da nacionalização do petróleo - do petróleo para a escola pública, a saúde pública - o arrojo da reforma agrária e do antiimperialismo, num continente onde as experiências populistas deram mais lugar à verticalização das relações políticas do que à sua horizontalização e fizeram do populismo, ao longo da história, uma resposta à crise de recomposição das elites.

Um pouco da história do povo e das simpatias que o Foram tecendo

Por mais curta que seja a investida, qualquer dicionário tenderá a sinonimizar populismo como “simpatia pelo povo”. A simpatia ainda vá, mas se qualquer um@ de nós se deitar a pensar sobre o que é o povo comprometerá a qualidade do des-

pertar. Pelo menos desde Marx, e com todo o património da esquerda moderna, a categoria não colhe, nem emoções palpitantes, menos, ainda, operacionalidade. De Povo está a história cheia. Consensualizamos o seu plural nas monarquias medievais, nos “povos do rei”, para recordar a actualidade desse rei-pai a quem os atributos da justiça permitiam regular o máximo de equilíbrios possíveis no máximo de desequilíbrios existentes. Apanhamos bem o Povo nos debates sobre a construção do estado moderno. Se a soberania da Nação era prima direita das Luzes, a soberania do Povo pareceu, umas tantas vezes, assumir-se como complementar, mas desafiante. A Nação tinha o apetite de uma grande força moral; o Povo era o lado maioritário da nação e o menos soberano de todos os lados. Mirabeau,

ao deslocalizar a designação da assembleia de representantes da Nação para o Povo, abria um enfoque mais democrático, diferenciável da abstracção da Nação e da Liberdade fundadora que lhe assistia. No latejante século XIX, e no que toca a Portugal, a soberania do povo foi menos propagandeada por fervores constitucionalistas do que denegrida por realistas. E, no entanto, a contra-revolução tradicionalista, a que associarão D. Miguel, contava com mais amor do Povo do que a esperada institucionalização do liberalismo. Nos Açores, por exemplo, a modernização das estruturas administrativas e económicas que antecede, aliás, a difusão da revolução liberal no arquipélago, espoliou miseráveis, retirou-os do usufruto das terras de toda a gente e de ninguém, proibiu-lhes a criação de cabras, obrigou-os a tra-

balhos compulsivos como a construção das estradas do mercado e do progresso. É nesta viragem que o amor pelo Povo começa a fazer estalar a linearidade das revoluções liberais, acrescida da decepção perante as revoluções de 1830, 1848, que abastaram de povo a produção escrita, de Michelet a Vítor Hugo, entre outros. A burguesia e o conformismo estavam instalados e adubava-se o espaço daquele sentimento, daquela atitude moral. Apontando-se comummente o final do século XIX como o início do populismo moderno, com dois pólos tão distintos como a Rússia e os EUA, não se estranhará a convivência comum de valores agraristas e de crítica ao capitalismo17. O Povo, recuperado por uma moral de sentimentos, reactivo à racionalidade e abstracção de um Estado em construção acostado ao individualismo, foi moldura estética e literária, foi pasto de românticos, de publicistas, de dirigentes políticos, o que nos serve para recordar que o populismo teve, e tem, essa vocação para vir do colo de ideólogos e académicos para a sociedade, para poder ser acariciado e adubado por actores de poder. Substantivado pelo organicismo e pelo crescente desprezo pela visão positiva do Estado, o espírito do Povo foi decantado por filósofos e ideólogos que encheram o espírito de Hitler, mesmo que não seja tão linear como se pode pretender a compreensão do fervor pela morte de Hegel decretada por um jurista do nazismo18. O populismo moderno recrudesceu na reacção ao liberalismo e pode, hoje, ser entendido como uma das mais doces faces do neoliberalismo. O populismo potenciou totalitarismos, abrigou expressões de terrorismo e há quem lhe vislumbre a maior actualidade no mundo islâmico. Os seus ciclos de vitalidade, nestes últimos séculos, atravessam a Europa, estendendo-a bem a leste, a América Latina, na extensão da crise dos anos trinta, de Mussolini e Hitler aos ismos do outro lado do Atlântico (peronismo, varguismo). Ali, por mais diversificadas que sejam as leituras, insiste-se no serviço do populismo ao rápido despertar do mundo urbano e industrial, alicerçado na aliança policlassista que uniu a burguesia industrial aos seus explora-

dos, mantendo a distância de conflitos na localização exterior de inimigos, a velha oligarquia rural e os EUA. É bem certo que o populismo encontrou linguagens diferentes no Brasil de Vargas, na Itália de Mussolini, na Madeira de Jardim. Mas há uma unidade em todos os quadros em que foi poder. Encostou-se como elemento organizador aos nacionalismos, mormente no naufrágio do bloco de leste, contribuiu para reagrupar hegemonias, garantiu a integração autoritária do povo e da nação sob orientação e protecção do líder e do Estado. Longe das retóricas de visibilidade, Salazar também não recusou amar o Povo. Para além da imagem que os manuais de história nos devolveram, da família rural, católica, singela, nuclear, do pai que volta do trabalho para encontrar o dedicado filho e a dedicada esposa, ou da retocada laboração e invenção do folclore nacional, o entretenimento do povo e o bem querer o povo foram íntimos das preocupações de Salazar19. Talvez Santana saiba, como António Ferro tão bem recorda a Salazar, que somos um povo para o tristonho, que precisamos de carinho, que precisamos da face humana do poder. Soube-o na sua campanha para a câmara de Lisboa, onde pôde alardear exemplarmente a exploração da insegurança nas ruas. Sabe-o bem quando parece comover-se com as “famílias” que bem têm sentido “as dificuldades”. Sabe-o Morais Sarmento quando não assume a calamidade pública para o Algarve, mas vai socorrer “famílias” e “pensionistas”. Santana sabe-o quando fez carreira como comentador televisivo em “primetime”. Desfeito o esboçado estado social nacional, desreguladas as relações no mundo do trabalho, reinstaladas as fidelidades homem-a-homem, preparado o desmantelamento da função pública, da segurança social, que mal fará em garantir uns aumentos, em pensar, com carinho, nos pensionistas? Que mal fará o brinde nacionalista que o Ministro do mar

acena ao Povo, evocando a proibição da entrada do “barco do aborto” em Portugal em nome da soberania nacional? A nossa barriga não é assunto nosso, é um problema de soberania nacional. Percebe-se: a mãe, o útero, a nação, a integridade do povo que decide, quando uma das damas do movimento Pro- Vida, Isilda Pegado, recordava no último dia de Agosto que o povo decidiu assumir a defesa da vida desde a contracepção.

Um ponto de chegada

Há pouco mais de um ano o editorial do Combate encaixava a notável fuga de Fátima Felgueiras na “re-emergência de um populismo delirante, o fundamento das políticas tradicionais”20. É este o ponto de partida e o ponto de chegada deste texto. As modernas raízes do populismo, deste lado do mundo ocidental, endurecem em reacção aos excessos do individualismo e do racionalismo, à estruturação do estado liberal, à esponja das formas de propriedade e de exploração capitalistas. Naufragados das esperanças que muitas vezes desenharam, os publicistas que recodificaram o amor pelo Povo não eram, necessariamente, mal intencionados e viam-se reformadores. Foram, umas quantas vezes, agentes daquela mesma transformação, que não resistiram ao dealbar de referências fundadoras, como a do império napoleónico. Foram desiludidos e desencantados, aparentados com os nossos “arrependidos”, primos remotos dos Pacheco Pereiras. Mas o amor do Povo, o Espírito do Povo, a Política do Povo, atravessaram os séculos XIX e XX, senão interiorizando unilateralmente a Tradição21 - quando se pretende entender o populismo como resposta à crise da modernidade, ou como eflúvio pós-moderno - pelo menos, ignorando experiências de democracia, desprezando direitos individuais, encostados às mira-

gens organicistas, a novas edições de heróis, de líderes, do autoritarismo, do estatismo, do nacionalismo. As linhas que se seguem assumem que, mesmo naquela ambiguidade, o populismo é, por matriz, intrinsecamente velho: — o Povo do populismo não tem nenhum conteúdo sociológico, não é nenhum actor de classe, nem é constituído por cidadãos e cidadãs, por sujeit@s com contextos de pertença económico, social, cultural; é o mundo dos “pequenos”, dos que “sofrem”, dos “mais fracos”; é esse plasma, esse parente rico das concepções organicistas; — por mais que o populismo ensaie, um tanto à revelia do nacionalismo, conviver com a Modernidade e beneficiar do Progresso, os seus elementos tradicionalistas não se apegam, exclusivamente, ao tempo de um passado folclorizado e de um mito fundador; eles são, também, o paternalismo, requalificado no mito do Estado protector e substitutivo e no autoritarismo; — o Povo do populismo pode brindar o poder de uma fundamentação metafísica, convertendo-o em intérprete dessa outra coisa que está para além da história, dos homens e das mulheres; também por isto o populismo pode assumir-se, para além da esquerda e da direita, ou com elas, como metaideológico e metapolítico.

* Historiadora, dirigente do Bloco de Esquerda.

cecilia@combate.info

NOTAS

1 - P. Pereira, “Veritas Filia Temporis”, 14 de Julho de 2004 e 23 de Julho de 2004.

2 - “(...) O que é o populismo? Havendo falta de consenso sobre o significado da palavra nada como ir ao dicionário: populismo - simpatia pelo povo;(...). Qual é então o problema do populismo? Como é que pode ser anti-democrático se exactamente apela a que se tente implementar o que a maioria dos cidadãos pretende?” (BdE – Blogue de Esquerda, Comentários, 27 de Junho de 2004)

3 - Público, 12 de Julho de 2004

4 - Eduardo Cintra Torres, Público, 23 de Agosto de 2004.

5 - Diário de Notícias, 24 de Agosto, de 2004.

6 - “Se o seu objectivo é tornar-se um político populista (...) escolheu a época certa e o país certo. (...). O poder ainda pertence às elites mas os gostos culturais, que determinam o que tem e o que não tem relevância, estão na posse do povo. O povo é quem mais ordena porque é ele que compra, paga e consome. (...). Não é difícil ser populista. (...).Comece por vigiar a imagem, e sem demoras.(...) tem de saber usar a televisão em seu benefício, aparecendo frequentemente nos vários canais com a litania estudada (...). E, a propósito, esqueça os consultores de imagem, sobretudo se forem brasileiros.

Os brasileiros inventaram o Eng. Guterres.” (Pedro Lomba, “Populismo: guia prático”, Diário de Notícias, 24 de Agosto de 2004)

7 - Mas o novo fenómeno populista tem, porventura, a sua expressão mais contemporânea e mais séria no rosto sorridente de Silvio Berlusconi. (...).Era apenas um empresário convertido à política, que construíra a partir do zero um partidoempresa com um único accionista, vazio de ideologia, de referência e de programa. Berlusconi acabou por ser justificado pelas condições particulares da democracia italiana. Com mais ou menos incidentes, integrou-se na rotina europeia. O que não deixa de fazer dele, porventura, a mais perfeita materialização dos perigos que corroem as democracias liberais na Europa no limiar do século XXI. A diluição das fronteiras entre os poderes político, económico e mediático. O esvaziamento dos valores programáticos que serviam de referência aos partidos tradicionais, a absoluta mediatização da política. A sua glória é o resultado da lógica omnipotente das televisões, que transforma os políticos numa caricatura de si próprios e reduz a racionalidade política à irracionalidade emotiva do espectáculo. A Europa abalou, mas encaixou. Berlusconi começa a fazer parte da paisagem política europeia. (Teresa de Sousa, “Populismo de Sistema”, Público, 29 de Junho de 2004).

8 - “(...). De repente, com a crise política aberta pela ida de Durão Barroso para

Bruxelas, o país descobriu que o velho partido do sistema é já maioritariamente o partido de Santana Lopes. Que a mudança de geração que se está a operar desde a saída de Cavaco Silva ameaça trazer com ela um outro partido. Populista, “berlusconiano” à portuguesa (...), ainda temperado pela peso da tradição socialdemocrata e conservadora do PSD. Mas muito mais próximo do PP de Paulo Portas” (idem).

9 - Michel Wieviorka, A democracia à prova, nacionalismo, populismo e etnicidade, p. 103.

10 - “O populismo neoliberal. Que conceito é esse que serve tanto para a política desenvolvimentista das décadas de 1950 e 1960, quanto para a política que liquidou o desenvolvimentismo, isto é, a política neoliberal das décadas de 1990 e 2000? (...) No Brasil de hoje, o mesmo fetiche do Estado protetor, que Getúlio Vargas utilizou para tocar adiante a industrialização e a ampliação dos direitos dos direitos dos trabalhadores, esse mesmo fetiche é reanimado pelo imperialismo e pela grande burguesia financeira para desindustrializar o país e suprimir direitos conquistados. O feitiço do populismo voltou contra os trabalhadores enfeitiçados. (...) Hoje, no governo, o petismo também lança mão do novo populismo para manter o modelo econômico neoliberal. O novo populismo atiça os pobres contra os remediados para o júbilo dos milionários que são preserva-

HABITUÁMO-NOS A OUVIR falar do populismo a propósito da história do século XX da América Latina, de Péron na Argentina, de Vargas no Brasil, entre outros. Aqui, os regimes populistas, apunhalando as velhas oligarquias rurais, produzindo legislação laboral favorável às classes trabalhadoras urbanas, ciosos da rápida industrialização, abrigados em plataformas sociais inesperadas, teriam conformado os vários ismos a encenações muito próximas. Populismo, nacionalismo, estatismo alimentaram o Peronismo, ou o Varguismo.

Sem branquear o espaço próprio do “populismo católico” daquele lado do Atlântico, e sem espaço para dar conta da diversidade de leituras que, de lá, acolheram o populismo como objecto de análise, insiste-se que a sua longevidade não se fez sem uma mística do povo, sem a localização de um inimigo exterior às alianças policlassistas, sem os líderes carismáticos que reconhecemos.

Os que investiram na qualidade do populismo em tempos de transição da sociedade tradicional colonial, de incipiente aparelho de estado, à sociedade urbana e capitalista (como Octa-

vio Ianni, ou Weffort), sublinharam o populismo como concreção da luta de classe.

A aliança conjuntural policlassista, de trabalhadores urbanos, classes médias, burguesia industrial, militares e intelectuais, na ausência de uma fracção de classe dominante com condições de garantir hegemonia, teria produzido a necessária ocultação de conflitos e investido no mito e na retórica capaz de satisfazer, real, ou simbolicamente, esta delicada e estranha teia de interesses e de tensões. O estatelar das limitações reais da satisfação teria desocultado os abismos sociais socavados.

Neste contexto, o varguismo é uma referência (1930-1954). Mas o populismo insiste em atravessar o presente, ainda pela mão de jornalistas, académicos, de produtores de opinião, reconquistando espaço de afirmação, reivindicando a actualidade.

Se em 1994, a Folha de São Paulo adjectivava os candidatos, Lula, Brizola, e o presidente em exercício, Itamar Franco, como populistas, pelo facto de não serem neoliberais desabridos, outros atribuem às décadas de 1990/2000 e ao petismo a viçosa configuração de um populismo “neoliberal”.

dos ilesos. (...).Entender e superar o populismo, eis um dos grandes desafios da esquerda brasileira hoje” (ARMAN- DO BOITO JR., “Vargas e a herança populista”, www.espacoacademico.com.br).

11 - Roger Dupuy, La politique du peuple.XVIII- XX, racines, permanences et ambiguités du populisme, Albin Michel, 2002, p. 210.

12 - Pierre-André Taguieff, “Le populisme comme style politique”,Le Retour du Populisme..., dir. Pierre-André Taguieff, 2004, p. 18.

13 - Ilvo Diamanti, “Anti-Politique, Télévision et Séparatisme: Le populisme à l’italienne”, Idem, p. 55

14 - Alexandre Dorna, Le populisme, 1999, p. 84

15 - Idem, p. 12

16 - Evangelho segundo São Mateus, Mt 5.

17 - Na Rússia, a experiência dos narodnicki, cuja integração nos populismos reserva alguma polémica, foi animada de doutrina por intelectuais com propostas pró-socialistas através de formas de cooperação (comunitarismo agrário) e a sua desestruturação surge potenciada pela difusão das ideias socialistas e marxistas. Nos EUA, nas décadas de 1880 e 1890, a acção dos camponeses contra os trusts e os monopólios estava associada à reacção contra as rápidas mudanças que comprometiam a protecção dos “pequenos”, fundamento mítico da república de Jefferson, ou Lincoln.

18 - “En contraste con estas ideas, Hegel explica-

ba ya en 1820 -Principios de filosofía del derechoque el estado es un concepto político y por lo tanto, una construcción racional y voluntaria. Rechazaba al pretendido “espíritu del Pueblo” porque su aceptación implicaba como contrapartida la negación de las contradicciones existentes en una sociedad; precisamente porque las concepciones totalizantes intentan suprimir la pluralidad de las conciencias individuales. No es casual por esto, que el jurista del nazismo Carl Schmitt escribiera en un periódico el día del ascenso de Hitler al poder: “Hoy ha muerto Hegel” (Roberto Campos, “Populismo y nacionalismo: dos caras de una fascinación por la identidad colectiva; http://robertocamp.tripod.com/ id26.html)

19 - António Ferro, aquecido pelos calores da ditadura italiana, questionava Salazar sobre a sua relação com o povo, sobre a necessidade de interiorizar a atmosfera espiritual e humana instalada por Mussolini, capaz de manter inalterada a alma do povo: “(...) Somos um povo nostálgico, que precisa de música, de alegria, da simpatia humana do poder, para sacudir o seu pessimismo, a sua tristeza nata...” E com o título de “Política do Povo”, Ferro insiste: “O povo gosta, na verdade, que pensem

nele, que procurem diverti-lo, acarinhá-lo...’Contentar o povo e não descontentar os grandes, eis a máxima dos que sabem governar’, disse Maquiavel que não era tão feio como o pintavam...- Tem razão – concorda o dr Salazar – E a exposição industrial provou-o bem. (...). A música, na minha opinião, é um dos grandes elementos dessa animação do povo. (...). Penso também em sugerir a organização de grandes espectáculos de cinema popular onde o povo possa entreter-se, simultaneamente, com filmes educativos e com filmes que o divirtam. Convenceremos assim o povo, pouco a pouco, de que pensamos nele, de que a sua felicidade e o seu bem-estar constituem uma das nossas maiores preocupações...” (António Ferro, Salazar, o homem e a sua obra, p. 83 e pp. 84-85).

20 - Francico Louçã, Combate, Junho de 2003.

21 - ”É ao mesmo tempo tradicional e hostil à modernidade, dado que ela destrói ou ameaça a tradição, e favorável a ela, uma vez que ela traz consigo o progresso (...)” tornando-se numa “fusão mítica de elementos contraditórios” (Michel Wieviorka, ob. cit., pp. 97-98)

Sobre a Venezuela, a esquerda vacila, mas confessa entusiasmo, mesmo que contido, por boa parte do processo, branqueando, umas tantas vezes, outras partes, incluindo o líder. As simpatias mais afirmativas ultrapassam mística e mitos, mormente o tónus bolivarista. Em Março de 1999, já Chávez apascentava intranquilidades ao recusar semelhanças com Péron, ao sobrepor o processo ao mito, ao convidar os críticos a ouvir o povo que falará: “(...); de Bolívar, del proceso, de la revolución democrática, pero gracias a Dios, creo que ya no lograron hablar del chavismo (...), porque sería terrible que de un hombre dependiera el proceso.” (Heinz Dieterich, Hugo Chávez: Un Nuevo Proyecto Latinoamericano, Havana, 2001).

A esquerda que não recusa a esperança de um processo está mais próxima de Tariq Ali, do seu reconhecimento de que nenhuma Constituição ocidental permite aos cidadãos o direito de revogar o mandato de um presidente antes do seu termo, do “triunfo dos pobres contra os ricos”, desse ensaio de uma “democracia social radical”, do petróleo para a saúde e para a educação dos pobres, da reforma agrária e da distribuição da terra, dessa democracia mestiça, que não precisa, nem de revo-

lução, nem de cânones marxistas. Estará mais próxima de acolher o que Chávez responde como sendo a sua “filosofia”:

”Não creio nos postulados dogmáticos da revolução marxista. Não aceito que estejamos vivendo um período de revoluções proletárias. Tudo isso precisa ser revisto. A realidade nos diz isso todos os dias. Estamos buscando na Venezuela a abolição da propriedade privada e a sociedade sem classes? Não creio. Mas se me disserem que por causa dessa realidade não se pode fazer nada para ajudar os mais pobres, as pessoas que tornaram esse país rico através de seu trabalho (...) para eles eu digo: 'Aqui nos separamos'. Nunca aceitarei que não possa haver redistribuição de renda na sociedade. As classes mais abastadas não gostam nem mesmo de pagar impostos. Está é uma razão pela qual me odeiam. Nós dizemos: 'vocês precisam pagar seus impostos'. Eu acredito que é melhor morrer na batalha, ao invés de levantar uma bandeira revolucionária pura e não fazer nada. Faça sua própria revolução. Vá ao combate: avance, mesmo que seja um milímetro, na direção certa - ao invés de sonhar com ilusões" (Tariq Ali, Por que Chávez venceu, www.planetaportoalegre.net: 17/08/2004).

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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