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Fahrenheit 9/11: a temperatura a que arde a liberdade

Sara Figueiredo Costa · setembro de 2004 · Revista Combate · 893 palavras

Dossier EUA · Combate n.º 280, setembro a novembro de 2004

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“ERA UM PRAZER muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.” Assim começa Fahrenheit 451, romance de Ray Bradbury e uma das mais fascinantes parábolas sobre um futuro que decide impedir o acesso aos livros, queimandoos e aniquilando o acesso à cultura e ao conhecimento como forma de sustentar uma sociedade acrítica, sem vontade de mudanças ou progressos.

Fahrenheit 451 é, segundo a epígrafe que abre o romance, a temperatura a que ardem os livros. Cinco décadas passadas, Michael Moore recupera a metáfora em Fahrenheit 9/11, remetendo o novo título para “a temperatura a que arde a liberdade”. Longe do cenário futurista e ficcional de Ray Bradbury, Moore transporta-nos para um passado tão recente que é ainda presente. Entre as eleições presidenciais de 2000, decididas de modo obscuro a partir do estado da Florida, e a invasão do Iraque, Moore selecciona os episódios que lhe permitem construir a sua visão da história por entre imagens de arquivo dos vários canais televisivos americanos, algumas inéditas, a que junta as suas próprias cenas, filmadas ao ritmo de um guião eficaz mas muito polémico.

Michael Moore assumiu desde o início que este filme era, antes de qualquer outra coisa, um instrumento de campanha para retirar Bush da Casa Branca, uma espécie de panfleto com imagem e som, reunindo uma série de argumentos capazes de provar claramente que a campanha anti-terrorista pós 11 de Setembro teve como único objectivo legitimar a invasão do Iraque e que esta invasão teve mais a ver com negócios petrolíferos do que com armas de destruição maciça. Apesar disso, uma parte significativa da crítica não perdeu a oportunidade de fazer a sua leitura do filme sem ter em conta a premissa base de que Moore partiu, acusando o realizador de apresentar uma visão pessoal, subjectiva e nada fundamentada dos factos, com conclusões especulativas e muito tendenciosas. De facto, Fahrenheit 9/11 é um filme que toma partido a cada cena, empurrando o espectador para as conclusões a que Moore já havia

chegado quando decidiu filmar. As relações entre Bush e a família Bin Laden, ou entre a invasão do Afeganistão e a construção de um gigantesco oleoduto, são induzidas pelos factos mostrados e pelo modo como se mostram. Mas não será esse o processo de qualquer documentário, mostrar uma opinião, uma visão de autor, a partir de factos seleccionados sobre uma qualquer realidade? A visão de quem filma para construir um documento visual não é imparcial e vazia, mesmo que se trate de fazer um documentário sobre aves migratórias ou sobre a construção de miniaturas de aviões da segunda guerra numa qualquer oficina artesanal. A visão de quem filma é pessoal e escolhe sempre os factos que refere de entre os vários disponíveis, escolhendo igualmente o modo como os apresenta e as conclusões que pretende induzir. No caso de Michael Moore, essa imparcialidade ilusória é afastada de modo contundente com a afirmação do carácter panfletário do seu filme. E um panfleto é a opinião de um ou mais indivíduos sobre uma realidade que querem confrontar e debater com mais indivíduos, procurando intervir sobre ela com alguma capacidade de a mudar.

Por outro lado, há modos de fazer avançar o guião de Fahrenheit 9/11 que perturbam mais do que o facto de estarmos perante um documentário-panfleto. Cenas como aquela em que a mãe de um soldado morto no Iraque lê a última carta do seu filho estica até à exaustão o drama pessoal, sugerindo os métodos de qualquer talk-show sentimental. Percebe-se a ideia: usar as estruturas que a comunicação de massas usa para explorar os sentimentos individuais, fazendo deles um problema partilhável e colectivo, permite chegar ao mesmo público alvo, dando-lhe a conhecer outros factos com os mesmos métodos e esperando, assim, a mesma eficácia. Ainda assim, persiste a dúvida: valeria a pena sacrificar deste modo uma linha narrativa e um modo de filmar com características fortemente definidas e pouco ajustáveis a cenas como esta? Ou de outro modo: valeria a pena sacrificar o documentário em favor do panfleto?

Uma nota final para as conclusões mais arrepiantes a que Fahrenheit 9/11 conduz e que estão longe do imediatismo dos comentários em voz-off. Independentemente do uso que Moore faz das imagens que nos mostra a partir dos arquivos televisivos, essas imagens são reais e muitas delas nunca foram transmitidas na televisão. E é aqui que a parábola de Ray Bradbury ganha forma de modo quase profético: uma sociedade que proíbe os livros e os queima não anda longe de uma sociedade que esconde dos seus cidadãos imagens como as que vemos aqui, sejam elas as de senadores que impedem o debate sobre o afastamento de dezasseis mil eleitores, todos negros, dos cadernos eleitorais, ou as de George W. Bush divertindo-se durante umas férias não previstas enquanto o pais mergulha na fobia do terror. É este o ponto que define a combustão, o momento em que se encena uma liberdade que assenta, afinal, na ocultação de dados imprescindíveis e no uso da ignorância desses dados para construir um medo infundamentado, mas que justifique guerras externas e internas, entre os bombardeamentos no Iraque e a negação de alguns direitos fundamentais, entre eles a liberdade de expressão e manifestação, com a desculpa de uma estabilidade que há muito desapareceu por entre as chamas.

* Investigadora na área da literatura, autora de um blogue sobre BD: http:\\becodasimagens.blogspot.com

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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