combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Os senhores do Fórum

Luís Branco · fevereiro de 2003 · Jornal · 932 palavras

Lula e Chávez · Combate, fevereiro de 2003, edição em linha

Desta vez, até Bové passou despercebido em Porto Alegre. Os holofotes concentraram-se em duas visitas que causaram polémica, mas por razões diferentes...

LULA

Ir ou não ir, eis a questão

Muita gente diz que o 3º FSM foi em grande medida a celebração da vitória de Lula. E bastava assistir a qualquer uma das conferências para perceber que a cada vez que era ouvida a palavra "Lula" - quase sempre acompanhada da palavra "esperança" -, a sala quase sempre irrompia em aplausos e cânticos. Mas não terá sido apenas por significar sucesso garantido junto do público que foram raros os oradores que evitaram pronunciar-se sobre os horizontes de mudança que as presidenciais no Brasil vieram abrir para a América Latina e para o mundo inteiro.

À porta dos pavilhões e do local dos concertos musicais, muitas bancas vendiam as sobras da campanha eleitoral: t-shirt’s, bandeiras e pin’s com a cara do presidente quando era candidato. Passando por cima da polémica sobre a presença de governantes no FSM, Lula fez questão de vir a Porto Alegre para dizer que só tem uma cara. Em cima do palco com mais de uma centena de coordenadores e figuras do Fórum (Mário Soares incluído) para um comício em que só ele usou da palavra, Lula soube como manter as mais de 70 mil pessoas presentes presas às suas palavras, ora emocionando-se no relato de momentos dramáticos da sua vida de sindicalista, ora afirmando-se ele próprio como o resultado de Porto Alegre, ora declarando a vitória de Porto Alegre sobre Davos. O efeito do comício resultou em cheio e neutralizou por completo as críticas dos que puseram em causa a sua ida ao Fórum dos ricos (ver ambos os discursos no link em baixo).

Ao colocar-se como a "ponte" entre estes dois mundos, Lula estará certamente a dar cobertura a um encontro que tem vindo a perder credibilidade nos últimos anos. É verdade que hoje é Davos que responde a Porto Alegre e não o contrário e por isso foi acertada a decisão de não mais agendar o FSM para a mesma data daquele. Mas também é verdade que o capital de esperança de que Lula é neste momento portador também lhe dá a força para assumir um papel mais activo na política externa numa altura importante da conjuntura internacional. Neste enquadramento situam-se não apenas a ida a Davos como a intervenção na crise venezuelana e o desejo de conquistar um lugar no Conselho de Segurança da ONU. A proposta de criação de um fundo a constituir pelo G7 para combater a fome no mundo, aplaudida pelos banqueiros e industriais presentes na Suíça, pode não entusiasmar muitos dos presentes em Porto Alegre, mas ela faz parte da imagem que Lula quer dar ao mundo do seu novo governo, solidário e dialogante.

Este estado de graça pode durar alguns meses, mas mais cedo que tarde os brasileiros vão começar a cobrar resultados: os sem-terra deram alguns meses de tréguas ao poder e têm agora como um dos interlocutores no governo um simpatizante da causa – o ex-vice-governador de Porto Alegre, Miguel Rosseto; e muitos acham optimista o objectivo de concluir algumas das reformas importantes em 2003, atendendo à composição do Congresso, onde o PT não tem maioria. Talvez por antecipar essa cobrança, Lula foi avisando em Porto Alegre que "o técnico importante para um time não é aquele que começa ganhando, mas aquele que termina ganhando o jogo que nos propusemos jogar. Tenho quatro anos de governo para..." e foi interrompido pela multidão aos gritos: "Oito! Oito!...".

CHÁVEZ

Vem aí o comandante!

Passou como um furacão por Porto Alegre, por entre críticas e apoios incondicionais. Ao contrário de Lula, que é o anfitrião do encontro, a presença de Hugo Chávez no FSM foi objecto de muita polémica. É ponto assente na organização que chefes de Estado não são bem-vindos a um Fórum que se quer dos cidadãos e dos movimentos sociais. Mas Chávez não resistiu a ficar longe do maior acontecimento político do planeta e onde se concentravam muitos dos seus apoiantes internacionais - como o italiano Bertinotti, que trocou um seminário para ir receber o comandante. A sua vinda, tanto como a omnipresença do governo brasileiro, levantou o debate sobre se o Fórum estaria a ser “sequestrado” pelos governantes, nas palavras de Naomi Klein

A situação política da Venezuela esteve sempre presente no FSM, sendo-lhe inteiramente dedicadas várias oficinas de debate. Num dos espaços ocupados por stands de editoras e ONGs viam-se três televisões e leitores de vídeo lado a lado. O objectivo era mostrar a cobertura informativa que as televisões privadas – do poderoso grupo Cisneros, entre outros – fizeram do golpe de estado falhado e da greve geral em curso. Ou seja, verificar como a intoxicação e manipulação dos meios de comunicação social influenciam a realidade no país e a forma como o vemos de fora.

Chávez optou por ser recebido no palácio do governador, literalmente cercado por alguns milhares de pessoas que tentavam ter acesso aos 600 lugares do auditório no interior. Um verdadeiro banho de multidão seguido por muitos acenos ao povo a partir da varanda do palácio, onde os aplausos só deram lugar a assobios quando o incauto Chávez resolveu cumprimentar o governador Rigotto. Lá dentro, o presidente venezuelano reiterou as críticas aos golpistas e desmentiu a existência de uma greve. Para Chávez, o que há é a sabotagem e o encerramento das fábricas e das refinarias pelos desestabilizadores. Tirando de um bolso uma miniatura da Constituição e do outro um crucifixo, o comandante diz estar preparado para a batalha.

Luís Branco

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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