combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Uma pluma contra a hegemonia

fevereiro de 2003 · Jornal · 570 palavras

LGBT · Combate, fevereiro de 2003, edição em linha

O crescimento em número, mas acima de tudo, em visibilidade, da presença do movimento LGBT (lésbicas, gays bissexuais e transgenders) na terceira edição do Fórum Social Mundial (FSM) constitui uma mudança de duplo sentido no processo de construção de um "outro mundo possível". Se, por um lado, demonstra uma abertura e preocupação dos outros movimentos sociais na luta contra a discriminação em função da orientação sexual e identidade de género; por outro, é uma prova do envolvimento crescente do movimento LGBT nesse "movimento de movimentos" que se tem vindo a (re)construir no Fórum Social Mundial e que representa uma nova forma de internacionalismo e de globalização das lutas e resistências.

Essa maior visibilidade do movimento LGBT e da sua agenda política e social foi conseguida através da existência do "Planeta Arco-Íris - Fórum da Diversidade Sexual", um espaço físico e de discussão política dos activistas LGBT presentes no FSM, e que teve ao longo de 5 dias mais de 5000 visitantes e participantes nas diferentes oficinas aí realizadas, e que teve como grande objectivo o reforço/criação de redes internacionais contra-hegemónicas de activistas LGBT; mas também em outros espaços como o Acampamento Inter-Continental de Juventude houve visibilidade e discussão das temáticas LGBT, através da presença de jovens homossexuais no campo e de algumas oficinas aí realizadas.

Mas foi o facto de pela primeira vez o Conselho Internacional do FSM ter convidado, um activista LGBT para discursar numa das grandes conferências que aglomeravam mais de 15 mil pessoas, que marcou a diferença nas discussões e na reflexão em torno da criação de alternativas ao mundo em que vivemos, dando uma visibilidade necessária a esta temática e reforçando a identificação do movimento LGBT com o próprio Fórum Social Mundial.

A afirmação de que a construção de alternativas, a construção, de um mundo mais justo solidário e igualitário passa também pelo combate às diferentes formas de discriminação e, entre elas, a homofobia constituiu assim, esse passo que faltava dar no próprio FSM.

A discussão sobre os modos e as fórmulas como o capitalismo neo-liberal, o crescente neo-conservadorismo dos governos mundiais, a perda dos direitos individuais, o clima de violência e de ataque aos direitos humanos – de que o vizinho ataque ao Iraque é apenas um exemplo - atingem de formas tão diversificadas, mas tantas vezes específicas, as populações LGBT no mundo foram alguns dos temas tratados.

A discussão em torno da construção dessas alternativas para um outro mundo, é um processo longo, por vezes aparentemente pouco frutífero, mas que terá que ter como parceiros todos aqueles que, se revendo na necessidade de mudança, querem mudar para esse outro mundo...

O movimento LGBT pela sua tendência para a transversalidade das suas visões e intervenções pode ser um importante parceiro neste processo se para isso mantiver a sua "veia" de radicalização dos discursos e das práticas, não se acomodando a fórmulas e "ganhos" conjunturais.

Para o movimento LGBT português, reconhecidamente jovem, por vezes ingénuo, mas de grande dinâmica interna, a consciência da necessidade de desenvolvimento de contacto com os outros movimentos sociais leva-nos a ser parceiros interessados e envolvido na construção do Fórum Social Português. Resta saber até onde os nossos parceiros estão dispostos a ir connosco. Resta saber que caminho querem traçar para a construção de alternativas sociais e políticas para uma outra sociedade portuguesa!

Paulo Jorge Vieira

Jornalista, membro da associação juvenil "não te prives" – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais (naoteprives@yahoo.com)

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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