combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Portugal é o Qatar da Europa?

setembro de 2002 · Jornal · 1.433 palavras

Combate, setembro de 2002, edição em linha

Contou a imprensa mais atenta que Durão Barroso entrou na Casa Branca a citar Churchill e a dizer que era um aliado dos Estados Unidos, mas um aliado "com opiniões". contou a mesma imprensa que Bush, ao ouvir um aliado tão minúsuculo a cantar de galo, não pôde conter uma gargalhada. Nós não estivemos lá, mas acreditamos. Se a história não é verdadeira, é bem inventada. Na verdade, o que é que Durão estava a pedir senão essa homérica, essa sobranceira, essa humilhante gargalhada?

De qualquer modo, no fim da conversa Durão lá fez a rábula de fingir que Bush lhe tinha iluminado o espírito com provas sobre a perigosidade do Iraque. Esta é, evidentemente, uma história mal contada, que não dá para acreditar: que espírito pode Bush, alguma vez, iluminar com argumentos? Pode, no entanto, exercer pressões e obter resultados. Aqui, interessavam-lhe garantias de livre utilização das Lajes e certamente as obteve.

Quanto a Durão, e também Sampaio, se quiserem ser levados a sério na sua pretensão de ter "opiniões", têm de começar por recusar a utilização das Lajes. Não lhes pedimos muito: sigam apenas o exemplo da subserviente Arábia Saudita, que neste caso não levou a subserviência ao ponto de dar luz verde aos Estados Unidos nas suas bases. Recusem ser o Qatar da Europa - sim, que o minúsculo Qatar é até agora o único dos lacaios pró-ianques do Médio Oriente a autorizar expressamente a utilização do seu território ao serviço da agressão.

Mãos fora do Iraque!

Os minutos de silêncio do 11 de Setembro constituíram um batuque ensurdecedor de preparação ideológica para a agressão ao Iraque. Mas eles não alteravam a realidade de uma campanha que até agora tem vindo a saldar-se num fracasso.

O único recruta importante que a Administração Bush conseguiu até agora alistar para a sua cruzada foi o infeliz Tony Blair. E mesmo esse tem contra si as sondagens, os sindicatos e o partido. Se for para a guerra, e principalmente se a guerra demorar, poderá estar a comprar uma segunda guerra com todos eles, só para conservar a especial cumplicidade entre as duas principais associações criminosas do planeta - os imperialismos britânico e ianque.

Rússia, China, França, Alemanha - todas as outras potências importantes se pronunciaram contra um processo de agressão que começou por fora dos canais da ONU. A Liga Árabe fez também uma declaração contra a guerra. Até o regime saudita, habitual criado dos Estados Unidos na região, anunciou que desta vez não permitiria o uso das suas bases militares por tropas norte-americanas.

Mais ainda do que o mau humor dos regimes corruptos do Médio Oriente e do Maghreb, aquilo que pode vir com um ataque, feito a solo ou em duo, é a derrocada das várias ditaduras regionais lacaias dos Estados Unidos. Tal como o xá da Pérsia em 1979, hoje podem ser os regimes de Marrocos, Turquia, Egipto ou Arábia Saudita a cair. Um ataque realizado nestas circunstâncias pode trazer à rua milhões de manifestantes e ser o dobre de finados para essas ditaduras. Nesse caso, uma cruzada que começou para obter petróleo ainda mais barato que o saudita arrisca-se a fazer disparar os preços, e não apenas durante o lapso curto e suportável de uma guerra que corresse "bem".

O discurso de Bush na ONU mostra que, à beira deste abismo, o imperialismo hesitou em lançar um ataque que contaria com a simples superioridade da sua força bruta. O presidente americano aumentou a pressão para pôr a ONU a levar-lhe a água ao moinho. Assim perderá algum tempo mas espera ganhar mais algum apoio político. Nem por isso terá escapado ao dilema de que, quanto mais tarde atacar o Iraque, mais frágil e putrefacta estará a base da sua ocupação no Afeganistão.

Para uma possível ofensiva diplomática de Collin Powell, a pedir contas à ONU, só Gerard Schröder parece estar preparado com uma resposta: com ou sem ONU, o Iraque não deve ser atacado. E mesmo neste caso trata-se de uma preparação relativa. As suas declarações pré-eleitorais mereceriam mais confiança se não tivesse sido ele a participar na guerra dos Balcãs. Quanto aos outros governos objectores, nenhum dá garantias de manter as objecções perante uma campanha política um pouco mais inteligente vinda de Washington.

Entre um Iraque que é hoje uma pálida sombra do que era em 1991, e uns Estados Unidos que nesta década se tornaram a única superpotência do mundo, não existiria, militarmente falando, nenhuma dúvida sobre o desfecho da guerra. Mas a guerra depende de numerosos factores políticos que desta vez jogam contra os Estados Unidos. O Iraque não invadiu ninguém. Não foi possível fabricar ligações suas com a Al Qaeda nem com o antrax. Ninguém acredita que nesta década de bloqueio tenha reconstituído sequer o seu antigo arsenal de armas químicas e biológicas. As fotografias de genocídio que a opinião pública mundial vê todos os dias vêm agora da Palestina e não do Kosovo. Por muito que os governos se inclinem perante a vontade do império americano, os povos do mundo terão também uma palavra a dizer. Ao lado do povo iraquiano, contra a guerra de rapina do petróleo, contra a pirataria anglo-americana!

Pacheco Pereira: um caso para o TPI

josé Pacheco Pereira (JPP) entregava-se no "Público" de 11 de Setembro ao "exercício", como ele próprio diz, de imaginar o que acontecerá se o Iraque não for imediatamente travado na sua alegada corrida às armas de destruição em massa.

Nessa altura, diz-nos o eurodeputado do PSD, Israel estará na mira de Saddam Hussein e "o único cenário realmente eficaz em termos de impedir o Armagedão pode ser a utilização de armas nucleares, as únicas que podem garantir o grau de devastação que impeça que não só a liderança iraquiana sobreviva, como muitas das suas instalações militares escondidas". Notemos bem as palavras: JPP quer "um grau de devastação suficiente". E ele bem sabe, como logo a seguir acrescenta, que "haverá milhares de mortos civis".

JPP explica ainda que neste hipotético cenário "os EUA poderão hesitar, mas os israelitas certamente que não". A mensagem é clara: apoiem agora a carnificina ianque, porque ela será feita com armas convencionais, ou então sujeitem-se daqui a uns anos a uma carnificina israelita, feita com armas nucleares.

O nosso autor engana-se aqui de várias formas. Primeiro, se houve alguém na história que não "hesitou" em cometer o crime de lançar a bomba atómica contra populações civis, foi precisamente o imperialismo americano. O nosso historiador nunca ouviu falar de Hiroshima e Nagasaki? Nunca se deu ao trabalho de reflectir o que significava lançar essa bomba contra um Japão já derrotado, que enviava sinais insistentes de querer render-se? Não lhe ocorre que o "aviso" de Truman à URSS, à custa de centenas de milhares de vidas inocentes, pode bem repetir-se agora num aviso à Rússia, à China, à própria Europa?

E, em segundo lugar, JPP engana-se redondamente ao remeter para um futuro distante a agressão nuclear isrealita. Foi já para esta guerra que responsáveis militares sionistas advertiram que poderiam utilizar a bomba nuclear, se o Iraque lançasse contra eles as armas que tem.

E, já agora: se a guerra dos EUA é "preventiva", com medo de que um dia Saddam faça desembarcar os seus soldados nas praias da Florida - porque não havia Israel de utilizar também "preventivamente" a bomba nuclear? Porque havia de esperar passivamente para ser primeiro atingido pelas alegadas armas iraquianas de destruição em massa? A partir do momento em que passa a valer a ideologia da "guerra preventiva", passa a valer tudo - e não nos esqueçamos que era também essa a ideologia dos nazis para atacarem a URSS sem prévia declaração de guerra.

Numa palavra: ao justificar, para o futuro, um crime de guerra cometido com armas nucleares, JPP está na verdade a justificar a sua perpetração já nesta guerra. Como os ideólogos nazis Goebbels, Rosenberg, Streicher, Fritsche, que nunca deram um tiro mas foram acusados de crimes de guerra - e julgados, os que viveram o suficiente para isso - JPP é um daqueles energúmenos que pululam na retaguarda. De teclado em punho, ele incita ao ódio e à violência contra povos e culturas que, da sua janela de Bruxelas, aprendeu a considerar inferiores. Com as suas mãos, ele nunca fará mal a uma mosca: mas com as suas palavras vai justificando a limpeza étnica na Palestina e um eventual holocausto nuclear no Iraque. Se o TPI não fosse uma piada de mau gosto, JPP seria um sério candidato a partilhar o banco dos réus onde Milosevic bem pode esperar por Sharon, Peres e Bush.

António Louçã

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

← Cheiro de guerraLisboa debaixo de fogo →

Algo errado nesta página? Reporte um erro