combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Lisboa debaixo de fogo

setembro de 2002 · Jornal · 791 palavras

Combate, setembro de 2002, edição em linha

O que é que há em comum entre os okupas da Praça de Espanha, os Artistas Unidos e um qualquer turista em veraneio por Lisboa durante o mês de Agosto? Provavelmente, só o espanto. O espanto pela prepotência do executivo camarário, pela evidência do retrocesso de uma cidade sem projecto ou destino. Espanto pelo mau gosto declarado feito regra da política cultural do novo poder na câmara municipal.

Já se anunciava quando no mês de Junho, mês tradicional de festas populares na capital, a animação da cidade se resumiu às marchas da Avenida da Liberdade e a uma nova pintura nos pavilhões da Feira do Livro. Nesse momento, ficámos a saber que a cultura para Santana Lopes são sardinhas vendidas a preços especulativos e a transmissão televisiva da competição entre as lantejoulas dos vários bairros da cidade. Espectáculos de rua, diversidade cultural, oferta e mostras gratuitas dos trabalhos de tantos artistas que podem convergir numa grande capital, são devaneios do passado. Em tempo de recessão económica, a câmara de Lisboa escolhe criteriosamente os seus investimentos, patrocina e apoia a Praça da Figueira como palco da festa pimba da telenovela de momento da TVI, mas remete o Arraial do Orgulho para Belém. Longe do centro, longe da vista...

Para os amigos

Com pompa e circunstância, o presidente da Câmara desce do seu automóvel para anunciar ao mundo que a partir desse dia restringia a circulação automóvel na zona do Chiado, durante o fim de semana. Na semana seguinte, governo e câmara anunciam o investimento público na reabilitação do bairro. Ficámos sem saber como será aplicado o dinheiro uma vez que nestas conferências de imprensa, não se podem fazer perguntas.

Entretanto o Chiado transformou-se no palco das vaidades de Santana Lopes. Agosto sofreu com um palco instalado na Praça Camões e um outro improvisado encostado à boca do metro, de costas para a estátua do Pessoa. Num deles, ranchos folclóricos e bandas filarmónicas esforçaram-se por atrair as atenções de quem quisesse disputar a pouca sobra do largo. No outro, um atleta contratado dirigia uma aula de movimentos absurdos para uma música em volumes que faziam calar definitivamente a filamónica do outro lado. De boca aberta, os turistas procuravam refúgio dentro dos cafés, os utilizadores do metro tentavam escapar-se por entre a parafrenália que bloqueava os acessos. Só o pedinte mantinha a dignidade de quem faz parte da cidade, respira com ela, nela dirige os olhares com que ganha a vida. "É bom voltar ao Chiado", anuncia a Câmara junto de cada uma destas iniciativas e em faixas penduradas nos candeeiros. Não se consegue perceber porquê.

Inimigos

Última semana de Agosto, a CML afixa na porta da Casa Enkantada da Praça de Espanha aviso para desocupação imediata. Entre este primeiro aviso e os escombros da Casa passaram-se 4 dias. Alta eficiência dos serviços que ainda tiveram tempo para se preocuparem com o "social" e oferecerem aos jovens ocupantes um T2 em Chelas acabadinho de pintar que ficou tão bem na televisão! Resultado da operação: terreno em localização valorizada disponível, okupas derrotados e com eles todos os que lutamos contra a especulação e por uma cidade para as pessoas. Com o buraco deixado livre pelo Teatro Aberto, Lisboa tem agora um novo palco para poder mudar. Alguém já sabe como?

Talvez entusiasmado com este sucesso, poucos dias depois, Santana faz o mesmo aviso aos Artistas Unidos no Espaço Capital. À vereadora cabe agora o jogo de oferecer umas instalações em Chelas, ou no Lumiar. Com esta Câmara é assim: primeiro o buldozer, depois a negociação e o projecto. Pelo caminho ficaram 4 espectáculos agendados para o mês de Setembro, uma companhia sem espaço, um bairro amputado do seu centro cultural fundamental e que nos últimos anos foi fortemente responsável pela sua renovação. O que é que isto tem a ver com o Chiado!? É só logo ali ao lado...

Mas todo este zelo pela degradação urbana é ideologicamente orientado. Não se nota nos muitos milhares de casos de abandono e ruína, na hipótese de terramoto e na ausência de condições para a sua prevenção mínima, nos caminhos para o fogo e na sua falta para os bombeiros, na degradação especulativa de grande parte da cidade. Ou seja, o que motiva Santana é atacar os espaços da esquerda, da radicalidade, da independência cultural, da diversidade artística e étnica dos bairros. "Acabar com a cultura de esquerda do município", foi a sua promessa. Está a cumpri-la. Acabar de vez com a ideia de que a cidade pode ser aquilo que as pessoas fizerem dela deve ser o primeiro pensamento da manhã do actual presidente de Câmara em Lisboa.

Bem pode continuar a sonhar. A cidade continuará a existir, apesar dele e do seu poder mesquinho.

João Carlos

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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