combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Se a vida fosse aqui

outubro de 2002 · Jornal · 903 palavras

Combate, outubro de 2002, edição em linha

“A vida não é aqui", proclamavam os estudantes no Maio de 68, referindo-se às instituições de ensino. Também hoje é evidente que a vida morre asfixiada nas escolas. Porque as aulas são muitas e não sobra tempo para o resto. Porque tantas vezes não nos revemos no trabalho que fazemos na escola, não lhe percebemos o sentido nem a pertinência, ainda por cima com tanta coisa diferente para fazer fora dela (a música, a dança, a pintura, o descanso...). Porque os exames se aproximam e não há tempo para conversar com os amigos ao fim da tarde. Porque o anúncio da aspirina já surge nos ecrãs a lembrar que tempo de avaliação não é tempo de vida. Porque é preciso aprender a decorar e a reproduzir e não a tirar prazer do que se estuda. Porque "há lugares para tudo" e decididamente insistem que a escola é o lugar de ficar sentado a olhar as costas dos outros e o quadro. Porque a escola desconhece quem a habita e ignora as lógicas informais que a regem. Porque somos "estudantes profissionais" e o nosso trabalho é estudar. Porque a escola é para construir o nosso futuro, aprender coisas que serão úteis sempre "mais tarde" e para isso é preciso sacrificar o presente (e no entanto, é hoje que lá andamos).

"A vida não é aqui", diziam os jovens há mais de 30 anos. Mas se, de repente, nos lembrássemos que afinal até é na escola que aprendemos muito do que nos é mais útil para a vida? Se nos lembrássemos que é lá que passamos grande parte do nosso dia e que por isso mesmo é lá também que o presente se encontra connosco e nos construímos com os outros, na cooperação e no conflito. Que é na escola que existem os recreios e grande parte dos amigos. Que foi na escola que aprendemos djembé, que aprendemos política, que aprendemos graffiti. Que foi não só, mas também na escola que aprendemos a relacionar-nos, que descobrimos o activismo e o amor. Não deveremos concluir que, afinal, a vida já entrou na escola?

Talvez o maior drama das nossas escolas seja este mesmo: é lá que a nossa vida acontece mas a instituição escolar precisa de ensinar a ignorar a vida para se manter imutável. É como se houvesse duas escolas que não se percebessem. A primeira (a oficial) é a dos programas, dos ministros, dos conselhos directivos, dos regulamentos internos, dos testes e dos alunos transformados em adversários na corrida para o sucesso. A segunda (mais clandestina) é habitada não por alunos mas por jovens e é nela, atrevo-me a dizer, que se fazem as grandes aprendizagens, as que nos permitem ser o que somos, aquelas donde retiramos prazer e até notoriedade. O drama é que essas escolas não se percebem, falam linguagens diferentes e estão, tantas vezes, em profunda contradição.

Neste impasse, o discurso da direita é claro: apoiando-se numa espécie de senso comum sobre o facilitismo, a indisciplina ou o esforço individual, o objectivo é regressar à velha escola do "contar, ler e escrever" (e do amor vivo pela nação, é claro). É este o projecto que funde os interesses conservadores com a retórica neoliberal. Vêm aí mais exames, rankings cada vez mais "rigorosos", escolas ainda mais vocacionadas para reproduzir e avaliar. A avaliação selectiva e redutora, como os exames - que não tem em conta o percurso de cada um, as suas experiências, o processo de aprendizagem, a diversidade cultural, o esforço -, é apresentada como a única que garante a exigência, a qualidade e o rigor. Sabemos, à esquerda, como a valorização do mérito e da responsabilidade individuais sempre serviu para ocultar a verdadeira origem do sucesso e do insucesso: a desigualdade social e uma escola feita à medida do aluno modelo da classe média. Sabemos que vem aí a escola da violência por que a direita anseia: mais competição, mais egoísmo, mais exclusão.

A esquerda, pelo seu lado, tem vindo a defender a escola pública e gratuita. É importante, mas não chega. Porque esta escola, ao mesmo tempo que se massificou, tem-se constituído como espaço de sofrimento e de angústia para professores e alunos. Porque tem excluído e, em vez de cumprir a generosa promessa de acabar com as desigualdades, tem sido uma peça fundamental na sua reprodução. A escola pública e gratuita só é defensável na medida em que for reinventada.

É aqui que voltamos à vida: só podemos reinventar a escola a partir dos espaços de vida que nela restam. Não se trata de ter uma visão ingénua e idealizada das culturas e convívios juvenis, também eles atravessados por violências de classe, étnicas ou de género... Do que verdadeiramente precisamos é de superar a forma escolar. Construir uma escola democrática que seja mais democrática e menos escola. Que seja mais centro comunitário, que se abra a diferentes linguagens e às experiências do artista, do psicólogo, do capitão de Abril, da avó. Onde a par da aula de matemática está um debate sobre drogas ou uma sessão de capoeira. Uma escola aberta das sete da manhã à meia noite, um verdadeiro espaço de participação e de afectos, onde não existe "educação para a cidadania", porque a escola é ela própria uma cidade, um espaço de cidadania permanente. Uma escola onde a vida existe e é livre. Onde se reinvente a cada instante o direito a ser feliz.

José Soeiro

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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