Socialistas aproveitam derrota trabalhista
Escócia · Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003Murray SmithAs eleições para o Parlamento autónomo escocês decorreram a 1 de Maio (1). Os grandes derrotados foram, por um lado, o Partido Trabalhista (Labour) no poder em Edimburgo como em Londres e,por outro lado, o principal partido da oposição, o Partido Nacional Escocês (SNP, independentista).
Os dois outros partidos do "bando dos quatro" do mundo político escocês, os liberais-democratas, parceiros governamentais dos trabalhistas, e os conservadores, mantiveram-se estáveis.
A consequência do escrutínio foi o avanço dos pequenos partidos independentes à esquerda do Labour, nomeadamente do Partido Socialista Escocês (SSP), formação da esquerda anti-capitalista radical.
Com 7,5% dos sufrágios, o SSP obteve 6 lugares. Os Verdes 7 lugares. Há ainda mais quatro independentes: um trabalhista de esquerda, já eleito em 1999; Margo MacDonald, figura histórica da esquerda independentista, afastado das listas do SNP e eleito triunfalmente como independente; uma candidata apresentada por um colectivo de defesa de um hospital ameaçado de encerramento; e um representante de uma lista de defesa dos/as reformados/as. Outro sinal da rejeição dos partidos tradicionais, apenas 48% dos/as eleitores/as se deslocaram às urnas.
Foi o avanço do SSP que foi mais marcante. Um diário de Glasgow tinha como título: "O SSP torna-se uma força política nacional". Na realidade, tanto no terreno social como no movimento contra a guerra, o SSP era já uma força nacional. As eleições apenas o vieram confirmar.
Já nas primeiras eleições para o Parlamento Escocês, em 1999, o SSP, que tinha sido lançado apenas uns meses antes, surpreendeu. Com apenas 2% a nível nacional, o partido tinha obtido 7,25% em Glasgow e conseguido um lugar (2). O deputado Tommy Sheridan fez-se rapidamente conhecer como porta-voz no Parlamento da "Escócia de baixo" e de todas as lutas populares.
Presente em todo o país e com listas paritárias
O SSP formou-se em ruptura radical com o New Labour social-liberal de Tony Blair, colocando o combate pela independência da Escócia numa perspectiva socialista. Militantes de extrema esquerda, com outros provenientes do Labour, do SNP, do PC ou do movimento ecologista, foram o motor do seu lançamento. A ambição era, no entanto, fazer não apenas mais um grupo de extrema esquerda, mas um partido anti-capitalista amplo e vocacionado para as massas. O objectivo era também sair das grandes cidades e construir um partido "das ilhas Shetland à fronteira" (com a Inglaterra). Aposta ganha. O SSP tem 80 secções por todo o país, sobretudo – mas não apenas – nas regiões operárias do centro. O partido obteve 9% dos votos nas ilhas Shetland (11% nas vizinhas Orcades) e a região da fronteira tem actualmente uma deputada do SSP.
Com 16% em Glasgow, o SSP consegue um segundo lugar, e outros quatro cabeças de lista são eleitos. Juntam-se a Tommy Sheridan, Rosie Kane, Frances Curran, Colin Fox, Carolyn Leckie e Rosemary Byrne. Quatro mulheres e dois homens: não por acaso. O partido assumiu o objectivo da paridade para os/as seus/suas eleitos/as apresentando como cabeças de lista nas oito regiões quatro homens e quatro mulheres.
Nas circunscrições de Glasgow, o SSP faz 10 a 16% (28% na circunscrição de Tommy Sheridan). Na "cintura operária" do centro do país entre 7% e 10%. Nenhuma região tem menos de 4%, nenhuma circunscrição menos de 2%. Nas eleições municipais que decorreram no mesmo dia, o SSP realizou também um avanço em número de votos, mesmo se o número de eleitos/as foi limitado pelo método de escrutínio.
Um novo partido para todos/as os/as assalariados/as
Há 103 anos os sindicatos britânicos criaram o Partido Trabalhista para defender os assalariados. A maior parte dos sindicatos continuam filiados no Labour. Mas actualmente, os laços com este partido são cada vez mais postos em causa. Numerosos militantes e responsáveis sindicais apresentaram-se nas listas do SSP, incluindo vários bombeiros, actualmente comprometidos num duro conflito com o governo Blair. Dois dirigentes sindicais de esquerda vieram de Londres para fazer reuniões para o SSP (como o cineasta Ken Loach). Um deles, Bob Crow, secretário-geral dos ferroviários (RMT), afirmou a propósito do Labour: "Para quê continuar a apoiar um partido que agride os assalariados? No que diz respeito ao RMT, o SSP é actualmente o melhor partido". A 1 de Maio, 128 mil eleitores/as escoceses/as deram-lhe razão. Fortificado por este sucesso eleitoral, o SSP crê tornar-se não apenas o "melhor partido" mas um partido anti-capitalista de massas capaz de tomar o lugar do trabalhismo falido.
Murray Smith, membro fundador do SSP escocês, traduzido por Inês Pereira
(1) Criado em 1999, o Parlamento Escocês dispõe de uma grande autonomia em questões como a educação, a saúde, a habitação ou o ambiente. No entanto, Londres mantém o controlo das alavancas económicas e fiscais decisivas.
(2) Em 129 deputados, 73 são eleitos por escrutínio uninominal maioritário numa só volta, muito desfavorável para os pequenos partidos, e 56 em proporcionalidade por listas regionais.
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.