Voi che sapete
Combate, setembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Foi quando preparávamos uma entrevista para o número zero um da revista da Abril em Maio que eu e a Mariana Vieira lemos de enfiada quatro ou cinco romances de Augusto Abelaira: A Cidade das Flores (o primeiro), Enseada Amena, Bolor, Outrora Agora (o último?, de 96) e bocados de As Boas Intenções e Sem Tecto, Entre Ruínas. Não se tratou portanto de uma leitura ociosa (havia um fim, um objectivo claro: a entrevista), o que não quer dizer que fosse propriamente "trabalho" (que era, afinal, o pretexto, o tema da revista).
Pelas circunstâncias, mas também pela "maneira de ser" dos textos, as personagens e as situações misturam-se agora na memória. Tem isto a ver com a maneira de os romances de Abelaira serem sempre "o mesmo romance", como o próprio já disse, talvez um pouco como os filmes de Rohmer são sempre "o mesmo filme": lá estão os jogos do amor e do acaso, os diálogos cultos e articulados da média burguesia, a mesma vocação para a "educação sentimental" (e até a mesma data, 1959, para a Cidade das Flores e Le Signe du Lion, no início da Nouvelle Vague). A diferença estará em que as personagens de Abelaira envelhecem com o autor (que não faz autobiografia ingénua) e, enquanto mudam e de novo se iludem e desiludem, muda também o mundo à sua volta.
Com o tempo da vida e da sua duração cruza-se um tempo histórico, medido em séculos e gerações, e nesse cruzamento pode pensar-se uma acção política que existe como problema nas vidas das personagens (agir ou desistir? e agir como?). Se o tema mais aparente é o do casal e das suas reconfigurações, os romances de Abelaira não deixam de ser, em surdina, políticos — sem por isso terem a preocupação das grandes soluções ou de só dizerem as coisas certas: "o romancista é o mais feliz dos homens, pode falar de si próprio, das suas contradições, do que nele há de reaccionário e não só somente progressista, de sujo e não somente limpo, e isso com uma discrição, uma ausência de exibicionismo bem mais difíceis ao poeta." (Enseada Amena, p. 152)
Assim se vê que o modo dominante é o da ironia (basta olhar para alguns títulos, escritos em pleno fascismo), a mesma que no romance inaugural faz com que se escreva Florença onde se devia ler Lisboa (num jogo perverso com a censura, que consentia que "algumas verdades fossem ditas se quem as dissesse tivesse o cuidado de fingir que as não dizia", Posfácio, p. 308), uma ironia que se estende à própria escrita. E é aqui que se encontra um dos maiores fascínios dos textos de Abelaira: no ritmo tortuoso das frases que os parênteses desenham, na dúvida que se atravessa no caminho das grandes tiradas e das expressões mais comuns, nos diálogos onde por baixo de uma frase dita há três que ficam por dizer (mas escrevem-se). Esta escrita, forma não-dogmática de pensar, estende-se à própria construção do romance, feito de blocos que uma complexa operação de montagem, rompendo com a linearidade, tornou contíguos. É ver os raccords entre tempos e espaços diferentes que organizam Enseada Amena, ou entrar no labirinto da "autoria" de Bolor, diário escrito a várias mãos/máscaras.
Que fica? Talvez não cumes artísticos seguros do seu génio, mas textos que nos pertencem, romances deste (ainda) nosso século XX, onde de vez em quando se pode trautear o "Voi che sapete (che cosa è amor)" de Mozart e fingir acreditar que os vindouros "hão-de lembrar com palavras de benevolência aqueles que vivem agora", como se diz nas Três Irmãs de Tchékov.
Francisco Frazão
"Carneiros, é assim que se diz? Ou carneirinhos, a inclinação, tão portuguesa, para os diminutivos. O vento horizontal (dotado de garras, pensa ironicamente, detestando, como detesta, as imagens inúteis, ainda por cima vulgares), o mar cinzento e encrespado, os reflexos brancos (a espuma)? e o barco à vela, para ilustrar turisticamente («para ilustrar» ou «utilizado para ilustrar»?) os postais destinados a transmitir ao mundo as belezas do Algarve. De novo a ironia, com ou sem imagens. Num barco assim (ou assado) afogou-se Shelley, um volume de Sófocles no bolso. Poeta ateu e progressista. Onde parará o livro do Maurois (Ariel, deu-lhe o pai)? Empréstimos, mudanças de casa (a quem deixar a minha biblioteca, se o Fernando já morreu?). E aquele coronel inglês (inglês, escocês ou galês, para nós todos os gatos são pardos, mas não para eles, ingleses, escoceses ou galeses) que no dia D atravessou a Mancha a ler, tranquilo, o Macbeth, se é possível ler, tranquilo, o Macbeth, mesmo sentado num maple. Poltrona e não maple. Maple é o nome de um antigo fabricante de móveis: inglês, escocês ou galês, para nós todos os gatos são pardos. Sofá."
Outrora Agora (Ed. Presença, 1996)
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.