O golfe do mar das indefinições
Alqueva · Combate, setembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Carlos CarujoDesde 1957 que se anda a falar do Alqueva, na altura devia alimentar a miragem de Sines, depois foi a agricultura e o combate ao desemprego a sua justificação, agora fala-se cada vez mais no turismo como a grande solução para a barragem. O projecto parece ter as costas largas, serve para todos os discursos dos mitos salarazistas ao desenvolvimento de uma nova lógica empresarial no Alentejo, passando pela reforma agrária do PC.
Foi tanto tempo que havia obrigação de ter estudado melhor os impactos ambientais quando até dúvidas há sobre se a poluição que o Guadiana traz do outro lado da fronteira permitirá o uso desejado da água. Com a construção da barragem a avançar finalmente assinou-se a certidão de óbito de milhares de aves e mamíferos, vítimas das águas ou de caçadores sem escrúpulos, cortaram-se sobreiros em vez de se transplantarem. O tempo também escasseou para a investigação arqueológica feita à pressa, a notícia tardia de gravuras artísticas neolíticas, de vestígios importantes de povoamento do calcolítico não abrandou o ritmo das obras. Não houve sequer tempo para reparar que o Alqueva estava a ser construído em cima de uma falha geológica, facto que teve de ser “remediado” à última da hora. O enchimento faseado, a redução do enchimento da barragem até à cota 139 e não à 152, propostas ambientalistas para minimizar os ditos impactos foram sempre ignoradas.
Nada comoveu a pressa do PS em busca de se apropriar da influência política no Alentejo. Exemplo claro, o primeiro perímetro de rega, a dita Infraestrutura 12 (cuja água nem sequer necessitava do Alqueva que antes de ser já seria), continua sem regar nada apesar das previsões que apontavam a campanha agrícola passada como prazo de conclusão, depois da correria da obra inaugurada pelo PS sem estar pronta, os defeitos falaram mais alto, a obra está a ser refeita e o governo de direita não pensa sequer em apurar responsabilidades, em ser indemnizado ou indemnizar os que acreditaram nas suas promessas. É que neste perímetro de rega duas atitudes dos proprietários se confrontaram: alguns investiram e os governos falharam na concretização, outros fizeram dinheiro fácil vendendo as terras recém-valorizadas aos espanhóis.
Agora à pressa demagógica de uns substitui-se a lentidão dos outros. O Alqueva arrisca-se a ser um monumento aos cortes orçamentais, ao investimento sem estratégia. O governo da direita adia a abertura de concursos, estrangula a empresa responsável pela gestão do empreendimento, que sobrevive à custa de manigâncias financeiras, escolheu o turismo e a produção de energia como vocação barata para a obra já feita. O elefante branco fica de molho num deserto de gente, pronto para turista ver e jogar: entre quatro a nove campos de golfe e 14 empreendimentos turísticos novos já previstos e os interesses do turismo desregrado continuam a pressionar e a denunciar o “hobby ecológico” que pretende alguma utilização agrícola da região. A certeza é de que o regadio que mudaria a região não é para já, que os atrasos parecem comprometer parte das ajudas e que mesmo que a via escolhida para o Alentejo fosse o regadio, uma rede de mini-barragens em cada projecto específico seria menos custosa do que o maior lago artificial da Europa.
No entanto, a opção salvífica pelo regadio que o PS apresenta parece ser a cópia do que em Espanha se fez. Para transformar em regadio viçoso a planície seca, agora que as ajudas da União Europeia estão a secar, o Alqueva seria a última esperança de recuperar o tempo perdido. Ao trabalho dos imigrantes ilegais quase escravizados que arriscaram a vida na construção da barragem, dever-se-ia seguir o trabalho de outros imigrantes, igualmente escravizados que, como aqui ao lado, são os sacrificados deste modelo agrícola agro-industrial cujas implicações em solos como os do Alentejo estão longe de ser benéficas.
A suposta mudança de tipo de agricultura dever-se-ia operar por milagre das águas, sem que os poucos agricultores e a pouca mão-de-obra agrícola com vontade tivessem formação. Para ajudar ao milagre, o PS avançou com a promessa de um modelo pouco compaginável com aquela que também é a sua política do deficit e de desinvestimento orçamental. Assim, instituiu-se o direito de preferência do Estado na venda de terras na zona do Alqueva que supostamente seria financiado por um “Banco de terras” que o Estado arrendaria a jovens; as terras compradas contribuiriam para aumentar o próprio banco (pescadinha de rabo na boca que não assegurava o financiamento necessário). O “dever de rega” em nome da empresa acima da propriedade completava o quadro de aparência progressista, até que a direita cancelou o sonho da “reforma agrária de mercado” a que o PS se atrevia.
É que tal capitalismo ainda choca com a estrutura fundiária alentejana. Quase metade dos subsídios agrícolas são para os grandes latifundiários desta região que o fascismo defendia e a UE consolidou e que pouco produzem, ele há liberalismos que param nos interesses instalados. Porém, este modelo está condenado assim que a torneira europeia fechar de vez. E se os grandes proprietários podem encontrar no turismo uma das soluções para a manutenção dos seus rendimentos, o Alentejo parece continuar no caminho da desertificação e da pobreza, seja a dos cereais sem futuro e dos touros à espera das touradas ou dos campos de golfe. Esperemos que a alternativa não seja entre um gigantesco campo de golfe e de casas de férias e uma agricultura em que poucos fazem da competitividade o nome da sobre-exploração do trabalho imigrante.
E do imperativo “construam-me porra!” no paredão de tantos discursos, o Alqueva parece ter perdido as certezas, nas suas águas infestadas de lagostins parece agora mais boiar a dúvida existencial: “para que sirvo eu?”.
Carlos Carujo
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.